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Ensaio 2023.2

De Superstição Trágica a Clássico de Literatura 

Sempre houve no retrospecto histórico das mais diversas culturas a desconfiança quanto a morte, fato este que pode nos lembrar da origem do panteão de deuses bem como os rituais e costumes relacionados a configurar um maior aconchego quando se trata do fim. Principalmente nos períodos antecedentes ao século XX, observamos, portanto, uma série de superstições e folclores da tradição popular se confundindo com a experiência cientifica, e ciência essa que sempre elaborava as respostas mais entediantes, já que não envolve o senso criativo de superstições milenares, mas sim a técnica experimentada de forma metodológica.

Estamos na segunda metade do século XIX, na região rural de Rhode Island. Uma família de protestantes, se trata de George e Mary Elizabeth Brown e seus filhos: Mary Olive, Mercy Lena e Edwin Brown.

Nessa época, o entendimento quanto a infecções bacterianas e antibióticos estavam ainda apenas no começo. Só em 1928 que Alexander Fleming descobriu a penicilina. Então no período dos acontecimentos com a família Brown, a causa da chamada “peste branca”, hoje conhecemos por tuberculose, era desconhecida. Entre a população da região se pensava que as pessoas infectadas eram consumidas e isso era associado a crença popular nos espíritos mortos-vivos. Segue-se um artigo de 1896, do The American Anthropologist, que exemplifica isso: 

"No Nova Inglaterra, a superstição do vampiro é desconhecida por seu nome próprio. Acredita-se que o consumo não seja uma doença física, mas espiritual, uma obsessão ou visitação; que, enquanto o corpo de um parente tuberculoso morto tiver sangue em seu coração, isso é prova de que uma influência oculta o rouba para a morte e está trabalhando, drenando o sangue dos vivos para o coração dos mortos e causando um rápido declínio. ”

E então nesse contexto a família Brown foi alcançada pela doença em 1884, Mary Elizabeth, esposa de George Brown, morreu em decorrência da “peste branca” ou tuberculose. E sem tempo para paz, logo em seguida, em 1886, a filha mais velha, Mary Olive Brown morreu pela mesma doença. Ficaram apenas: George e seus dois filhos, Edwin e Mercy. Quando esse passado trágico já parecia ter sido superado, em 1892, Edwin adoece e logo em seguida Mercy também adoece, e ela não resistiu e morreu nesse mesmo ano. Restava apenas George e Edwin além do desespero, pois Edwin ainda estava doente. George então buscava uma solução para salvar seu único filho restante. Apareceu Willian Rose, que foi visitar George devido a fama que tal maldição na sua vida tinha, e lá propôs o que seria a sua solução. Willian disse que Edwin estava possuído e só seu método podia curá-lo. Esse método consistia em desenterrar os corpos dos membros da família e descobrir quem era o hospedeiro do mal que recaiu sobre eles. Isso era necessário para comprovar inspecionando os corpos e vendo se estariam em estado de decomposição, assim estes seriam considerados mortos, porém se algum dos corpos estivesse em estado anormal (entenda como “aparentando estar vivo”) então seria necessário verificar o coração e ver se este ainda continha sangue , se tivesse, era entendido como a prova de que um demônio estava se abrigando ali, sendo necessário queimá-lo. Este processo descrito era conhecido como Exumação Terapêutica e se definia com o proposito de garantir que o corpo estava de fato morto. Logo, se ao exumar, fosse encontrado quaisquer vestígios de sangue ou carne não decomposta , eles arramavam o coração do defunto e queimavam, para “garantir”.

George Brown não tinha contado com a boa mão da medicina, já que todos da sua família que adoeceram, até então, morrerão. Com isso, ele já estava um tanto transtornado e impaciente, o que é evidentemente compreensível. E apesar de recusar várias vezes a ideia de William Rose, ele ao ver seu filho piorando e sem perspectivas, decidiu aceitar o método de William, mesmo não acreditando muito na eficácia de tal método. William iria realizar a exumação em Mercy primeiro, tendo em vista que esta havia sido última vítima da “peste branca”.  E assim seguiu-se, acontece que ao abrir o caixão se depararam com um corpo que mesmo após três meses, ainda estava com a pele conservada. Hoje nós sabemos a explicação cientifica para isso ter acontecido – era simplesmente porque o corpo estava conservado pelo frio, já que o caixão estava dentro de um galpão, esperando o desgelo da primavera para ser enterrado e este local manteve o corpo preservado através da baixa temperatura ambiente. Mas no contexto da época do acontecimento, e m 1892, a superstição era mais notável, e eles prosseguiram com a metodologia, retiraram o coração e o fígado de Mercy Brown e ambos foram queimados, as cinzas disso foram usadas para fazer um tônico, e este tônico, foi dado para Edwin beber. Só que mesmo assim, de nada adiantou, Edwin morreu ainda em 1892. E a tentativa só serviu para aumentar ainda mais a trágica trajetória de George Brown que viu a ruína de sua família.

Essa história repercutiu muito na época, os jornais associavam o suposto “monstro” do corpo de Mercy ao “Vampiro” da tradição folclórica europeia. 

Ainda em 1890 Abraham Stoker, conhecido por Bram Stoker, sempre se interessou pela literatura gótica, então interessava-se pelo horror sobrenatural, isso o levou as tradições medievais que constituíam lendas populares sobre vampiros e histórias mitológicas. O que o fez ainda neste ano iniciar esboços de um romance sobre vampirismo. Estava, portanto, a partir daí construindo a gênese de suas influências.

Stoker conheceu o caso da família Brown, quando este havia se tornado popular nos jornais, ou seja, em meados de 1892. Um recorte de um desses jornais da época , que falava do caso, foi encontrado nas anotações de Stoker, evidenciando a possível referência na escrita do seu clássico “Drácula” de 1897, que se consagrou como a principal obra do mito literário moderno do vampiro, além de se popularizar através das várias adaptações cinematográficas como: Nosferatu (1922) e O Drácula de Bram Stoker (1992).

Bram Stoker ainda publicou outras obras como Miss Betty (1898), O Castelo da Serpente (1891), A Joia das Sete Estrelas (1903), A Toca do Verme Branco (1911) e outros. Trabalhava na companhia teatral Irving Lyceum do ator Henry Irving, e por isso viajava a vários países, enquanto esteve no Lyceum de Londres escreveu vários romances e contos além de fazer parte do jornal londrino Daily Telegraph. Era casado com Florence Balcombe e teve um filho, Irving Stoker. Deixou um legado de relevância na literatura de horror, tanto que hoje existe uma premiação chamada Bram Stoker Awards que premia a melhor obra de horror de cada ano desde 1987. Bram Stoker morreu em 20 de abril de 1912, aos 64 anos, em Londres. A seguir verifica-se os romances e contos do autor:

 Romances:

The Primrose Path (1875)

The Snake's Pass (1890) 

The Watter's Mou' (1895) 

The Shoulder of Shasta (1895) 

Dracula (1897) 

Miss Betty (1898) 

The Mystery of the Sea (1902) 

The Jewel of Seven Stars (1903)

The Man (1905); 

The Gates of Life Lady Athlyne (1908) 

The Lady of the Shroud (1909) 

The Lair of the White Worm (1911)

Seven Golden Buttons

Contos:

Under the Sunset (1881) – eight fairy tales for children

Snowbound: The Record of a Theatrical Touring Party (1908) 

Dracula's Guest and Other Weird Stories (1914)

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